
"Rolling
Stones, U2, Leonardo Di Caprio, Antonio Banderas, Madonna, Spice Girls,
Luciano Pavarotti, John Grisham, Paulo Coelho, Steven Spielberg, Julia
Roberts. Quando as imagens de ícones culturais do ocaso do século XX se
projetam vertiginosamente em telas e monitores, perdemos a noção de que
eles se movem como signos sociais em cadeias de consumo globais. (...)
A profusão de imagens turva os horizontes perceptivos e reconfigura os
parâmetros sociais. Potencializados por redes eletrônicas e satélites,
os aparatos de difusão tornam próximos e presentes acontecimentos separados
por fusos horários, climas, injunções geopolíticas e iniqüidades de toda
ordem. Eles inscrevem, disseminam e consolidam não apenas referências
culturais (artistas, ídolos esportivos, estilistas, programas de televisão,
filmes, vídeos etc.), como também marcas de produtos (Ford, Disney, Intel,
Sony, General Motors, Mastercard, Kodak, Nestlé etc.), a maioria delas
sem origens nitidamente identificadas." (A cultura parabólica) "Os complexos de comunicação propagam modos de convivência e de pensamento que transferem para o mercado a regulação das demandas coletivas. O discurso da globalização intenta incutir a convicção de que a fonte primeira de expressão cultural se mede pelo nível de consumo dos indivíduos e coletividades. (...) A vontade de uma medida universal para a circulação de mercadorias engloba todos os subespaços econômicos, dentro de um espectro cultural ilimitado. A obsessão última é rentabilizar o capital e alavancar as margens de lucros." (A cultura parabólica) "A infra-estrutura de comunicações respalda-se na formidável expansão das tecnologias de informação, que estimulam, por conexões generalizadas, a convergência entre telecomunicações, mídia e informática. A linguagem digital comum potencializa as interfaces entre os dispositivos tecnológicos, multiplicando a capacidade de transmissão de conteúdos. O encurtamento das distâncias via satélite constitui um diferencial na produção global. A informatização, por seu turno, ativa a economia baseada na troca de dados. Televisão, rádio, telefone e computador tendem a confluir para uma via de circuitos integrados on line, cujos fluxos hipervelozes reconfiguram irreversivelmente as trocas comunicacionais e os acessos à informação e ao entretenimento." (O capital da tecnologia) "Em meio à rearticulação planetária do poder, os sistemas infotelecomunicacionais afiguram-se como molas propulsoras de um modo de produção que se ancora na economia da informação. A informação tornou-se fonte alimentadora das engrenagens indispensáveis à hegemonia do capital. 'O capital é uma coisa que você pode adquirir ou tomar emprestado facilmente, mas a chave do sucesso reside na informação. A grande questão, hoje, é a gestão do conhecimento, do savoir-faire acumulado por aqueles que comandam as empresas', pontua o consultor Paul Strassman, ex-diretor de informática do Departamento de Defesa dos EUA." (O capital da tecnologia) "A globalização reforçou enormemente a hegemonia das indústrias do entretenimento baseadas nos EUA. O volume de filmes, programas televisivos e videoteipes exportados para a Europa cresceu 225% entre 1984 e 1988, com receita média anual de US$ 561 milhões. Das 130 mil horas de programas veiculados na região, somente 25 mil eram produções européias. Mais da metade da programação provinha dos EUA, assim como 60% dos filmes exibidos. De 1987 a 1991, Hollywood dobrou as vendas de filmes e seriados de TV para o exterior, evoluindo o faturamento de U$ 1,1 bilhão para US$ 2,2 bilhões. No mesmo período, as gravadoras norte-americanas duplicaram as suas exportações, num total de US$ 419 milhões em 1991. Na virada para a década de 1990, CNN International, MTV e ESPN já eram distribuídos em vários continentes. A CNN — que ao entrar no ar em 1º de junho de 1980 alcançava 1,7 milhão de lares norte-americanos conectados por cabo — chegou a 70 milhões de casas nos EUA e a 91 países, em 1991, na seqüência do êxito de sua cobertura ao vivo, via satélite, da Guerra do Golfo." (A oligopolização da mídia) "Juntas, Time Warner, Disney, Bertelsmann, News Corporation e Viacom faturaram US$ 90 bilhões em 1997. Nos últimos dez anos, graças a aquisições e fusões, as quatro primeiras triplicaram de tamanho e a última duplicou. Os planejamentos corporativos obedecem a estratégias semelhantes: a) ofensividade máxima nas guerras industrial e mercadológica em qualquer hemisfério; b) centralização decisória e tecnoprodutiva, conglomeração setorial e desterritorialização das unidades de consumo; c) dispersão transcontinental dos negócios, com ênfase na Europa e nos mercados emergentes da Ásia e da América Latina; d) investimentos maciços em tecnologias digitais que estimulem a convergência em infotelecomunicações; e) acordos e joint ventures de amplo espectro, inclusive com grupos regionais de mídia, visando à otimização comercial de programações, bens e serviços." (A oligopolização da mídia) "Há claro indicativo de que a conglomeração tende a agravar-se na América Latina, unindo investidores internacionais a grupos multimídias regionais. A rota vem sendo pavimentada por fusões e alianças estratégicas, que facilitam a interseção dos veículos tradicionais com Internet, transmissão de dados e telefonia. (...) A reformulação do setor centra-se, por um lado, na progressiva internacionalização dos conglomerados regionais e, por outro, na escalada das megacorporações norte-americanas no continente, determinada pelas altas taxas de rentabilidade intersetorial. As diretrizes traduzem-se em coleções de joint ventures, repartições acionárias e acordos operacionais, geralmente concebidos e implementados sob a batuta de holdings estrangeiras. Ao examinar-se a conformação da indústria de mídia latino-americana, constatam-se traços semelhantes entre os maiores competidores: propriedade familiar, diversificação produtiva e patrimonial, convergência com telecomunicações e Internet, parcerias tópicas ou duradouras e busca de mercados externos." (A oligopolização da mídia) " '...nove clãs controlam mais de 90% de toda a comunicação social brasileira. Trata-se de jornais, revistas, rádios, redes de televisão, com mais de 90% de circulação, audiência e produção de informações.' Entre as proprietárias de grupos de comunicação, destacam-se as famílias Marinho (Globo), Civita (Abril), Sirotsky (RBS), Saad (Bandeirantes), Abravanel (SBT), Bloch (Manchete), Mesquita (O Estado de S. Paulo), Frias (Folha), Nascimento Brito (Jornal do Brasil e Sistema JB de Rádio), Alves (do empresário e ex-ministro Aluízio Alves, que possui o Grupo Cabugi de Comunicações, no Rio Grande do Norte, com emissoras de TV e rádio, jornal e provedor de Internet), Daou (TV Amazonas), Câmara (TV Anhanguera), Collor de Mello (Organizações Arnon de Mello), Franco (do governador de Sergipe, Albano Franco, com retransmissoras da Globo e do SBT, estações de rádio e jornais). Essas propriedades familiares refletem um dos traços característicos das elites empresariais brasileiras. Estudo realizado pelo economista Régis Bonelli para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que 90% dos 300 maiores grupos nacionais privados têm controle familiar iniciado no começo do século." (A oligopolização da mídia) "Operadoras e programadoras crêem que, até 2003, a inserção dos canais por assinatura no bolo publicitário subirá para 2% ou 2,5% — em 1997, foi de 0,9%. Embora a sua base de audiência seja bem menor do que a da TV aberta, a TV paga proporciona aos anunciantes duas vantagens: o custo de anúncios é bem inferior e a segmentação ajuda a identificar com mais precisão o público-alvo. Para se ter uma idéia da disparidade de custos publicitários entre as TVs abertas e pagas, basta informar que, em outubro de 1997, uma única inserção no Jornal Nacional, da Rede Globo, saía por R$ 106.072, ao passo que o anunciante gastaria R$ 150.330 para veicular diariamente por um mês seu comercial nos canais de filmes HBO e Telecine, com total de 60 inserções. Mas a diferença de resultados é expressiva: com um único anúncio no Jornal Nacional, são atingidos 2,7 milhões de domicílios nas classes A e B, além das demais faixas. Nos canais de filmes, só no final do mês a campanha consegue alcançar o número estimado de assinantes do HBO e do Telecine (1,9 milhão de domicílios)." (A oligopolização da mídia) "O setor editorial menos concentrado que o audiovisual e o fonográfico orbita em torno de dez megafirmas. São elas: Bertelsmann, Time Warner (Time-Life Books, Warner Books, Sunset Books e Osmoor House), Viacom (Simon & Schuster), News Corporation (Harper-Collins), Pearson (Addison-Wesley Longman, Penguin Books, Simon & Schuster Educacional), Hachette, McGraw-Hill, Reed Elsevier, Wolters Kluwer, Thomson e Rizzoli-Corriere della Sera (Bompiani). Juntas, elas absorvem 25% das vendas anuais de US$ 80 bilhões. Os EUA respondem por US$ 21 bilhões. Os três grupos com melhor desempenho — Bertelsmann, Time Warner e Pearson — faturam cerca de US$ 10 bilhões e controlam 50% dos negócios nos EUA, na Alemanha, na França e na Espanha. Notável exceção à regra, a indústria editorial é um dos raros segmentos em que firmas norte-americanas não monopolizam o seu próprio mercado. Metade das 20 maiores editoras pertence a grupos externos." (A concentração do entretenimento) "O cenário da segunda metade dos anos 90 aponta para um caminho sem volta: as mídias imprimem o timbre da interatividade em vários de seus produtos. Marshall McLuhan antevira esta possibilidade ao indicar que, com o avanço sistêmico das telecomunicações, se generalizam contatos e trocas: 'Mais e mais pessoas entrarão no mercado de informações, perderão as suas identidades privadas neste processo, mas irão emergir com capacidade para interagir com qualquer pessoa da face do globo. Referendus eletrônicos massivos e espontâneos atravessarão continentes'. A introdução de componentes interativos numa esfera fortemente marcada por emissões verticalizadas e unidirecionais viabiliza-se a partir da flexibilização das mecânicas de relacionamento com o público. O que se alcança, principalmente mas não só, pelo concurso de tecnologias digitais que gerenciam diálogos com as clientelas." (O filão interativo) "A íris do dragão capitalista espelha a sua espantosa capacidade de selar, em vários tipos de mercadorias, elementos simbólicos que traduzem muitas de nossas mais íntimas aspirações e preferências. Não é difícil concluir que as bolhas de consumismo não prosperariam sem a confluência da tecnologia com os complexos de mídia e entretenimento. Eles qualificam-se como atores de primeira linha no processo de reprodução do capital em dimensão planetária, lubrificando a rede de fluxos financeiros que conectam os mercados em tempo real." (Conclusões provisórias) |